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Mães, melhor em julgamento ou em segurança?

O julgamento é um fenómeno com o qual contactamos desde muito cedo. É algo que acontece de dentro para fora e de fora para dentro, ou seja em relação ao exterior e ao nosso interior. E na maternidade é muito frequente e começa logo na gravidez, passa pelo parto, acompanha a amamentação, floresce na alimentação, e culmina na educação dos filhos… e como é que isto impacta em nós, as mães? Como é que nós  mães podemos gerir isto? É sobre estes temas que desenvolvo este artigo.

 

Gravidez

É tão frequente haver julgamentos nesta fase que quando fui mãe, principalmente da primeira vez, senti como se as pessoas achassem que o meu estado de grávida lhes dava o direito de julgarem quer seja positivamente, quer seja negativamente os aspetos envolvidos nesse estado. E aqui entra um outro tópico que eu ironicamente “adoro” que são as etiquetas: é porque está gorda, ou é porque está magra, é demasiado cuidadosa, ou é exagerada – “Vejam só que agora caminha todos os dias, e isso é um exagero…!”.

Se gosta de vestir roupa de grávida aos 4 meses é porque “é cheia de mimimis”; se não gosta que desconhecidos lhe toquem na barriga é porque ”tem a mania”… e a grávida apanha com uma lista de julgamentos jeitosa e rechonchuda contactando com uma realidade, que muitas vezes se estende para além dos julgamentos provenientes dos familiares… e que toca áreas tão dispares como, o nome dos filhos, o tipo de quarto, o estilo de roupa pró bebé, os enjoos da mãe, etc…

 

Parto

Passando ao parto, “defrontamo-nos” com o “dilema” de se é no privado, ou se é no público, e depois se foi por cesariana, ou de parto normal… porque “há sempre” um julgamentozito, mesmo que a mãe não tenha tido muitas opções e não tenha podido gerir nem decidir quase nada, e quando precisa que a acolham parece que “todos” se esqueceram do processo que a grávida e o filho (e muitas vezes o pai) viveram, ou vivem. Verdade?

 

Amamentação

Vindo a amamentação também vem a questão de que agora ““boa mãe” é a que amamenta os filhos”, mas, se amamenta por mais de 6 meses já começam a “torcer o nariz” porque “não larga a criança”, “quer que a criança dependa dela”, “está sempre com a criança ao colo”…*

E se tira leite, ou se não tira leite… se congela o leite, ou se não congela o leite…

E quando mamam e comem? É hilariante a quantidade de julgamentos e críticas… “mas se comeu para que mama? Não precisa”; “mas se mamou para que come? Já não precisa”.

Não resisto em escrever isto que me apeteceu dizer tantas vezes “Então, se já comeu a sopa? Não necessita de comer mais nadinha.”

 

Alimentação

Depois da amamentação vem a alimentação do bebé, então coloca-se um manancial crescente de julgamentos à mãe. Começa pela quantidade da comida: “Se calhar tem fome, a mãe corta-lhe na comida”… ou “coitadinho, a mãe nem o deixa experimentar…” A mãe era eu que estava ao lado e que estava a ouvir… Como me senti? Infantilizada… mas, quanto ao que as mães sentem, já lá vamos.

Outra questão pode ser a qualidade do que come e quando come isto também pode ser alvo de julgamento, por exemplo: “já devias ter dado de comer à menina, de certeza que tem fome”; “já lhe podias dar chocolate ao miúdo. És demasiado preocupada… é só um bocadinho…” ou, “não lhe devias dar pedaços tão grandes”, ou “podias dar mais comida, se lhe desses mais, comia…”; e podia continuar…

 

Educação 

E agora, a grande rainha de todos os julgamentos para mim, é a da educação que é dada aos filhos, não só pela duração, mas porque tem duplo sentido. Isto porque, os julgamentos podem ser dirigidos aos pais e/ou aos filhos. E eu pessoalmente aprecio (ironia) mais as que vão dirigidas aos filhos e às crianças. Por que é que eu gosto mais e especialmente destas? Porque são mais da responsabilidade dos pais do que dos filhos, mas são grandemente dirigidas aos filhos. Os filhos o que podem fazer? Autoeducar-se?

Então o tipo de julgamento pode ser: se tem um percentil pequeno ou grande, se já devia falar, se já devia comer sozinho, se come sozinho é porque suja “tudo”, se chora é porque é chorão,  se fala muito e interrompe é porque é mal criado, se brinca e corre é porque não sabe estar, se quer a mãe é porque é mimado… e podia continuar, e continuar, e continuar…

E quais são as criticas aos pais? É porque são permissivos, severos, demasiado brincalhões, muito sérios, não entendem os filhos, não dão atenção aos filhos, “só” trabalham, não põem regras, não conversam… UFA…! Estes são “palpites” julgadores de que me lembro agora…

Julgamento: E então como é que  impacta as mães?

Pode afetar a autoestima, gerar medo, culpa, vergonha… Esta última é bastante comum, a vergonha é uma emoção social que aparece quando acreditamos que há algo de “errado ou de impróprio” em nós e que, se os outros virem seremos alvo de rejeição. Criamos uma imagem negativa de nós mesmos por causa de como somos, ou por causa de algo que fizemos e achamos que isso nos define. Para além disso sentimo-nos divididos entre o aceitar como somos e o não querer ser como somos… (Eleva, 2020)

  • Por esta amostra percebe-se o quão o julgamento pode impactar os outros?
  • Quando se está no julgamento, estaremos verdadeiramente a amar o outro?

Para as mães, é importante ter a consciência de onde estão e para quê fazem o que fazem. Isto dá-lhes a segurança, enraizada no seu propósito, nos seus valores e nas suas crenças de agir como decidem agir com os seus filhos. Consciência…

 

* (Laura Gutman diz qualquer coisa como isto: a fusão entre o bebé e a mamã é de 9 meses dentro e 9 meses fora, na forma de “bebé-mamã”. Então, mãe e filho, tecnicamente deveriam poder andar juntos pelo menos, 18 meses 😀 )

 

Encontra mais vezes a felicidade em ti e na tua família! ♥

#beyounique

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