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Como Controlar os Filhos

No fim de semana que passou levei os pequenos para fazerem uma colheita de sangue, a seguir fomos ao cinema, para no final almoçarmos no shopping. Neste percurso, como (não) Controlar os Filhos?

Partilhando entre amigos e familiares o nosso dia, as perguntas mais frequentes foram “E então, portaram-se bem?”; “Fizeram fita?”; “Choraram?” E então foi nesse momento que se disparam perguntas na minha cabeça: Como é que se portaram em relação a quê e a quem? O que é fazer fita? Chorar é bom, menos bom, ou mau?

É muito frequente nós pais criarmos expectativas de como deveria ser o comportamento dos nossos filhos, as suas reações, os seus resultados, e de como eles deveriam ser como pessoa. E quando assim é, não nos resta opção, teremos que procurar controlar os miúdos através de uma educação assente da manipulação, das ameaças, ou dos castigos… Estas são estratégias (como outras quaisquer) para poder condicionar o comportamento deles, porque, na verdade, aquilo que procuramos quando temos expectativas desta natureza é a obediência… e para isso acontecer, ou termos a certeza de que isso acontece queremos verificar e controlar.

Mas, já aqui voltamos…

Controlar os Filhos: Como tudo começou?

Levantámo-nos todos mais cedo (do que normalmente num fim de semana), traçámos (eu e o meu marido) a estratégia logística das análises; de quem fica com quem, de quem vai com quem, o que se faz entretanto, e fomos rumo às análises. Estava um dia nublado, típico da zona do Porto, nevoeiro fechado, mas não fazia frio. Vestiram uma t-shirt por baixo, cada um escolheu a sua, e depois um fato de treino que lhes ofereceram dias antes e que me pediam há dias para vestir (era novo, pois claro!). Durante todo este processo e ainda em casa expliquei-lhes o que ia acontecer, como se de um “relatório” se tratasse – direita aos factos, mas “muito” empaticamente.

Perante isto, a resposta de um deles sai disparada:

– “Sabes mãe, tenho medo, mas também tenho coragem, eu vou primeiro”

Passado um minuto, entre conversas e reflexões, o outro “responde”: – “Mas eu também tenho medo e coragem, eu vou primeiro!”

Chegados a acordo de quem ia entrar primeiro, fomos. E se me perguntarem como correu, correu como tinha que correr. Choraram? Choramingaram o que quiseram e como quiseram. Deixaram fazer a colheita? Sim.

Quando saímos do recinto o profissional que estava à porta perguntou aos pequenos:

-“Então grandalhão, choraste? Não choraste, pois não? Tu já és grande.”

Acredito que foi com a melhor das intenções e não me quero prender muito aqui, mas: Os grandalhões não podem chorar? Chorar é mau? Então e se os grandalhões chorarem o que é que acontece? São menos? Não podem ser grandalhões? Quando se faz colheita de sangue não se pode chorar porque se se chorar é-se menos?

Isto confunde as crianças… até a mim…

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Controlar os Filhos: Como se faz?

Agora imaginemos que para mim os meninos não podiam chorar ou choramingar (expressar-se) e que por isso tinha criado uma expectativa de que o seu comportamento deveria ser o de não chorar (e de arregaçarem a manga pelas enfermeiras). O que esperaria eu deles nesse dia? Obediência em relação à minha expectativa?! À expectativa que eu criei. Ora, se assim fosse, eu estaria internamente a colocar-me por cima e a eles por baixo, e que eu é que estava certa e eles errados.

Desta forma comunica-se indiretamente que é graças ao que lhes dizemos que eles conseguem viver e sobreviver neste mundo. Este comportamento leva as crianças a sentirem-se inseguras e perante essa insegurança não lhes resta mais remédio do que adotarem comportamentos submissos ou comportamentos rebeldes.

Os pais mais apegados a controlar os filhos normalmente são aqueles que estão também mais apegados ao facto de quererem ser bons pais e que normalmente desejam coisas que estão fora do seu alcance, tais como: querer que os filhos sejam felizes, que os filhos tomem “boas” decisões, que estejam sempre a salvo, que as pessoas não lhe façam mal… mas isso não está ao alcance dos pais, e diminui à medida que crescem com a sua autonomia. Por outro lado, o facto de querermos ser o seu guia ou farol, a toda a hora, coloca em nós o ónus da resolução dos problemas deles. Isso tira-lhes (também) autonomia.

O que fazer?

Devemos enquanto pais fazê-los contactar com o seu farol e o seu guia interno. Tendo consciência emocional, tendo um olhar “crítico” e avaliativo, eles poderão ter noção de que podem agir pela sua própria cabeça e decidirem, bem para além do que os outros lhes digam.

Quando os meus pais me deixam expressar as minhas próprias opiniões e emoções, e me deixam avaliar o que eu quero e me respeitam em termos de decisão, não porque são “boas” decisões, mas porque me respeitam, eu estou a aprender a perceber o que é “bom” e o que é “mau” na vida. Aprendo isso por mim mesmo e não como um exercício de manipulação e de controlo sobre mim…

Não sabemos que decisões vão tomar, não sabemos como vai decorrer a sua vida, não sabemos como vão reagir…  Há decisões que invariavelmente são eles que vão ter que tomar.

Os meus filhos decidiram como se comportar naquele momento e em todos os outros momentos do dia. E eu vou querer controlar isso? Controlar o que sentem? É que o comportamento reflete o que pensamos e o que sentimos.

Posso criar condições para que eles possam avaliar várias hipóteses, para que possam ter critério. E cá estarei para os acompanhar sem me  afastar quer seja fisicamente, quer seja emocionalmente deles.

Então e eles podem fazer tudo o que querem?!

Os pais podem assumir que estão prontos para tudo, mas que não estão preparados para nada (“Lista para todo, preparada para nada (Laura Pubill)) e poderão logicamente recorrer a normas e a regras. Normas e regras com a intenção de criar um bom ambiente familiar, ou garantir a segurança e a integridade deles, o que é diferente de controlar os filhos.

– “Meninos, lembram-se de irmos ao doutor há uns dias atrás? O Doutor viu-vos por fora, lembram-se? Agora ele quer ver como é que vocês estão por dentro e para isso é necessário tirar um bocadinho de sangue. Sabem como se faz? (e eles falaram) É isso mesmo, vão-vos “dar uma “piquinha”” no braço para retirar o sangue e depois vamos embora.

– E dói, mamã?

– É uma “piquinha” e dói como quando espetamos piquinhos nas mãos no parque e depois de tirar o sangue tira-se a “piquinha” e deixa de incomodar.

– Sabes mãe, tenho medo, mas também tenho coragem, eu vou primeiro”, passado um minuto o outro “responde”: – “Mas eu também tenho medo e coragem, eu vou primeiro!”

E foram, fizeram-lhes a colheita e saíram. Decidiram no momento como se iriam comportar, como se podiam e sabiam comportar. Escolheram o brinquedo de “oferta” e partilharam o que sentiram entre família. E em momento nenhum quis que eles se comportassem de maneira diferente, simplesmente porque não criei expectativas. Assumi que estava “Lista para todo, preparada para nada” e expliquei-lhes que tinham que “tirar sangue” para o doutor os “ver por dentro” – e não lhes dei outra opção.

 

Encontra mais vezes a felicidade na tua família! ♥

#beyounique

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