Paula Pinto Almeida / Filhos  / À Vista (da) Guerra…

À Vista (da) Guerra…

Tenho visto algumas manifestações em relação Guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Em 5 minutos de stories consegue-se ver desde, manifestações de revolta em relação ao conflito, até vídeos de militares a despedir-se da família, passando por bombas a cair ao lado de casas, pais militares que dançam para apaziguar o coração dos filhos e em posts que dão indicações de como explicar a Guerra às crianças.

Não venho aqui deixar a minha opinião nem em relação ao conflito, nem a formas “corretas” de falar desta realidade às crianças, mas venho procurar refletir sobre o que queremos para nós e para a nossa família.

“Frases Feitas”

Li algures que se TEM que contar às crianças que há uma guerra porque podem esbarrar-se com essa realidade nas televisões, também ouvi quem dissesse que só lhes devemos dizer na medida do que perguntarem, porque se perguntam é porque estão preparados para ouvir a nossa resposta… li ainda que devemos abordar o tema consoante as idades e, ainda que se deve comunicar a todas as crianças e pronto, pois esta realidade é um facto.

Bom… E tu sabes verdadeiramente o que se está a passar? Tu sabes como é que isto te está a impactar a ti, as tuas emoções, e a tua vida? Sabes como os está a impactar a eles? Achas importante saber isto para os poderes acompanhar? Achas verdadeiramente importante que eles saibam em pormenor ou em detalhe o que está a acontecer?

Todos os dias (de Guerra) Aprendemos

Acredito que todos sabemos pouco e que todos os dias vamos aprendendo mais. A primeira coisa que fiz (nem está certa, nem está errada) foi procurar saber sobre mim e sobre como me impactava esta situação e em segundo lugar, o que é que eles sabiam e como o sentiam. Connosco na semana passada foi (mais) assim:

– Filha falaram sobre a Ucrânia na escola, ontem?

– Não mãe. Já tínhamos falado antes, mas ontem a professora não abordou o assunto. Mas, os meus amigos disseram que está em guerra com a Rússia. A Rússia invadiu a Ucrânia e estão em guerra.

– Pois, é verdade. E tens alguma dúvida ou queres falar sobre isso?

– Não.

Passado uns minutos e prestes a sair de casa:

– Pai, por que é que agora só se fala da guerra? Antes só se falava do COVID. Agora o COVID já não mata? A guerra mata mais pessoas que o COVID?

Veio para o carro porque estávamos prestes a atrasar-nos e eu peguei na questão:

– Ouvi o que perguntaste ao pai. O pai teve tempo de te responder?
– Não, porque estávamos para sair. Mas, não percebo por que é que a guerra; que sei que mata, é verdade, acaba por matar menos gente do que o CIVID. Por que é que é agora assim tão importante? O COVID deixou de ser importante? Deixou de matar e de infetar pessoas?

– O que é para ti a guerra filha?

– São bombas, são lutas, são mortes. Respondeu, enquanto atrás os mais pequenos antecipavam algumas respostas e acrescentavam que eram explosões, aviões que deixam cair bombas, combates… (sabiam mais do que eu poderia julgar)

– E o COVID? É um vírus que pode afetar todo o mundo.

Conversámos sobre o Corona Vírus, a sua fase, a pandemia… Sobre a guerra deixámos para falar depois. Mas, nesse momento ainda tivemos tempo de conversar de que existem guerras noutros sítios do mundo e que acontecem todos os dias, “só” que esta está mais perto de nós e pode impactar-nos mais diretamente.

Então, sobre a Guerra, não se conta “tudo”?

Para mim, conversar sobre as coisas e sobre os temas, não tem que ser: ou se conta tudo, ou não se diz nada. Para mim, é ir conversando, é ir abordando, é ir avançando no tema. Na medida do que sabemos, medindo o que sabem. Recorrendo a factos, evitando extremismos e julgamentos porque esses são nossos, não são deles. Os factos são de todos, os julgamentos são de cada um.

Reconhecer em nós o que sentimos e não lhes passar os nossos medos, ansiedade, temor. Falar com “normalidade” de um tema delicado que toca vidas humanas que não sendo nem mais importantes, nem menos importantes que as nossas, são isso mesmo – vidas humanas. Os nossos filhos e nós também somos vidas humanas. Se eu estiver “tolhido” pela criação de uma emoção que gero porque visualizo a realidade “alheia”, estou a condicionar a minha qualidade de vida. A minha e a deles, se absorver essa ansiedade e se lhes passar essa ansiedade, esse medo, essa emoção.

Deixemos que criem a emoção deles, perante factos que lhes passamos. E depois acolhamos essa emoção. Assim mesmo, acolhendo: “Oh filho, eu compreendo o que sentes…”

O Perigo mora ao Lado

O nosso cérebro quando vê um filme, não distingue se o que vê é connosco ou não. Produz a emoção e pronto. O stress que surge ao vermos imagens de destruição, ou ouvirmos sirenes e gritos de pânico influencia, e essa influência é real. Aquilo que vemos, ouvimos e pensamos impacta as nossas emoções e pode colocar-nos num lugar muito desconfortável mesmo essa não sendo a nossa realidade REAL (passo a redundância). O stress invade-nos (se deixarmos).

A empatia e a compaixão existe sem que eu tenha que sofrer, posso sentir dor, claro, ela existe por tudo o que acompanhamos, mas para haver sofrimento precisamos de o alimentar.

Por outro lado, como é que eu enquanto mãe, cidadã de um país e do mundo sou mais útil? Deixando-me invadir pela emoção, pelo medo? Nós podemos escolher como nos queremos alimentar. Os filhos seguem-nos e facilmente vibram onde nós vibramos.

Eli Lebowitz, diretor do programa infantil do Centro de Estudos da Universidade de Yale sobre Transtornos de Ansiedade refere que: “As crianças olham para os pais para entenderem a sua realidade e o mundo. Isso começa na infância.” Lebowitz fala de um estudo que aborda a resposta dos bebés aos sinais faciais dos seus pais quando decidem gatinhar por um solo transparente. Os bebés cujos pais pareciam assustados pararam de gatinhar. Os que tinham pais que aparentavam calma continuaram.

A forma como lidamos com os problemas é a fonte da sua aprendizagem. Os problemas podem não melhorar, mas a forma como eu lido com eles pode (mudar e até mesmo) melhorar.

 

Encontra mais vezes a felicidade em ti e na tua família! ♥

#beyounique

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